terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
The Path To Eternity [C.20]
Cap.20 - A eterna noite
A noite caiu conosco no meio do gigantesco oceano de Tenaryon, o mar estava bem calmo, ondas pequenas, o céu sem muita nuvens, e a lua minguante iluminando o nosso caminho.
- Você já ouviu falar no estreito de Bewölkung e Dalfa Ezyaw? - eu estava sentado no chão da gigantesca embarcação, quando dois marinheiros se começaram a conversar a alguns metros de mim - Há lendas que existe um monstro no mar, naquele estreito, é por isto que todos que querem atravessar de um continente para o outro, ou parte por Okeäna Virsanas, ou por cima de Bewölkung.
- Um monstro?! - o outro marinheiro pareceu assustado - Como você sabe disso?
- Meu pai era marinheiro, e partiu com o falecido Rei em uma viagem a Bewölkung, poucos voltaram de lá, poucos sobreviveram a este monstro, meu pai foi um deles, junto com o Rei - o marinheiro contava com muita sabedoria - Nós estamos indo desembarcar no cais de Yelïejâ Kazenëm!
- Não sei onde fica - o marinheiro mais inexperiente disse.
- Para chegar em Yelïejâ Kazenëm, precisamos passar por um dos limites de onde o monstro vive - ouvi aquilo e levantei-me do chão, me aproximei dos dois, os dois me fitaram esperando algo sair de minha boca.
- Não está falando de Uguns, está?! - fite o marinheiro mais experiente.
- Uguns?! Não senhor, Uguns não entra em água, não gosta de água! - ele contava com muita empolgação - Este monstro é outro, ele é..
- Não há monstro algum - Freya, que ouvira tudo, aproximou-se de nós - Ouça, seu pai foi atacado por um dos Sarkans marinhos, não é monstro, os Sarkans marinhos são altamente passivos, como Üdenstornis, mas ouça, a maioria são, existem exceções, já ouvi falar deste tal "monstro" que ataca viajantes por água.
- E o que a senhora sabe? - o marinho inexperiente falou com Freya sem ao menos saber quem ela era.
- O que eu sei - Freya riu baixinho - Acredite - Freya fitou o marinho experiente - Este Sarkan, que vive neste lugar em que você citou, não atacaria uma embarcação sem receber um ataque ou ser intimidado antes - Freya o olhou no fundo dos olhos.
- Como pode afirmar isso?! - o marinheiro se exaltou.
- Veja como fala! - falei firme.
- Por quê devo respeito a ela?! Não é nem rainha, ou coisa do tipo - o homem estava irritado.
- Deixe Volker - Freya me fitou - Quando nos aproximarmos do tal "monstro", provarei quem sou para todos - Freya sorriu suavemente e foi embora.
- Quem é ela senhor? - o marinho mais inexperiente fitou-me.
- Você verá... - suspirei.
Os dias foram passando lentamente, fora a viagem mais longa que já tinha feito, duas semanas inteiras trancado dentro de uma embarcação, somente com água por todos os lados, para falar a verdade eu nunca gostei muito de navegar, gosto de manter meus pés no chão, me sinto mais seguro.
Em um certo dia, passamos ao lado de uma terra estranha, seu solo era negro, as árvores mortas, e por todo o tempo que permanecemos navegando perto de sua costa, não vimos o sol nascer, era um fenômeno mais que estranho, pois ao sul de onde estávamos, existia uma vasta ilha chamada Sarkan-Stadt, onde Suhrt reinou por muitos e muitos anos, é mais conhecida por ser uma terra povoada de Sarkans, e lá o sol pode ser visto normalmente, de manhã e ao entardecer, o pôr do sol, mas somente na província por onde passamos não era assim, e logo deduzi, Müzïgä Nakti, o lugar onde Kenrs vive.
Suspeitei que estávamos não muito longe de chegar ao nosso destino final, mas ainda tínhamos por volta de cinco dias de viagem, e o mais interessante é que quanto mais nos aproximamos, mais devagar o tempo passava, chegava a ser torturante, ficar naquela embarcação.
- Vejo que está um pouco impaciente Volker - Freya sentou-se ao meu lado perto da proa da embarcação.
- Não vejo a hora de chegarmos em terra firme... - estava impaciente mesmo.
- Também nunca gostei muito de embarcações - Freya fitou o céu escuro da eterna noite que estávamos - Sabe... - a fitei, o vento fazia seus longos cabelos brancos voarem, a luz das estrelas brilhavam em seus olhos azuis, sua pele branca se contrastava com suas maçãs do rosto rosadas, sua beleza prendia minha atenção, podia ficar ali olhando... por muito e muito tempo, pensei que nunca iria ver um ser mais belo que Kvasyr, mas encontrei - Um dia lhe mostrei o que realmente é bom - ela sorriu delicadamente, passou a mão no rosto para tirar alguns fios de cabelo da frente dos olhos - Uma vez, fui a Sarkan-Stadt...
- Quando aprisionou Suhrt?! - a interrompi, ela me fitou surpresa ao saber que eu sabia de sua história - Acredite, sei mais sobre sua história do que imagina, sempre me fascinei por tudo que envolvia você, seus feitos, sua justiça.... Sua.... Beleza... - aquilo saiu de minha boca sem eu mandar, ficamos nos olhando fixamente por alguns segundos e quando percebi como aquilo era constrangedor, corei muito e fitei o céu - Desculpe-me.
- Desculpar?! - ela ainda me olhava - Você me elogiou, o que isto tem de errado?
- Nós homens não devemos ser mal educados desta forma com moças - estava nervoso, Freya gargalhou - Do que está rindo?! - a fitei sem entender.
- Vai se transformar em cavalheiro agora? - ela ria.
- Desculpe-me se não a respeito - me senti um pouco mal com o que ela disse.
- Não é isso! - Freya me fitou - Não sou uma dama Volker.
- Não! - a olhei fixamente nos olhos, ela ficou séria - Você é mais que isto, sabe quantos homens desejam neste minuto estar ao lado de uma mulher como você?!
- Não diga isso! - ela ficou envergonhada e virou o rosto.
- Falo sério! - peguei em sua mão sem pensar novamente, sua mão estava quente, sua pele era mais macia que um pêssego, ela olhou-me rapidamente ao sentir minha mão na sua - Desculpe-me - respirei fundo e fitei o céu novamente.
- Não seja bobo - ela riu baixinho, se arrastou-se um pouquinho no chão para se aproximar de mim e encostou bem devagar a cabeça em meu ombro - Gosto de estar ao seu lado, e isto é o que importa - percebi que ela havia fechado os olhos.
Ficamos em silencio por um bom tempo, somente com o som das ondas batendo no casco de madeira fina da embarcação, tentei regular minha respiração, pois estava nervoso de mais, quando menos percebi pude ouvir sua respiração bem próxima de meu ouvido esquerdo, ela abraçou meu braço e continuou de olhos fechados.
- E o que ia me contar antes? - falei baixinho.
- Irei lhe mostrar em breve - ela respondeu.
Aquela noite, ou dia, não sei bem o que era, foi um dos momentos mais marcantes de minhas lembranças, ficar aquele tempo todo ao lado de Freya, com ela praticamente em meus braços, senti-me bem, senti-me o homem mais sortudo do mundo.
Após um bom tempo ali, pude ver ao longe uma luz, era como se a luz partisse a cortina da noite no meio e reinasse naquele lugar, mas não conseguisse atravessar mais.
- Veja - chamei a atenção de Freya, que ainda estava com os olhos fechados, ela abriu os olhos e fitou a longínqua luz.
- Estamos saindo dos limites de Müzïgä Nakti, e entrando em Bewölkung - ela sorriu.
- Você anda dormindo direito? - não sei bem porque havia perguntado aquilo.
- Só estou um pouco cansada, esta viagem está me deixando exausta - ela levantou-se do chão - Vai ficar aí mesmo?
- Para onde vai? - levantei-me.
- É chegada a hora de mostrar ao seu povo, que ainda existe esperança - ela sorriu, segurou minha mão com força e correu para o meio da embarcação.
- O que houve senhor? - um marinheiro perguntou-me.
- Veja - apontei para a luz no horizonte - Estamos saindo de Müzïgä! - quando eu disse aquilo, todos os outros marinhos vibraram de alegria.
- Não aguentava mais só noite - Freya riu.
Depois de algumas horas saímos da escuridão da província morta de Kenrs, e já pude ver os campos vastos e coloridos de Bewölkung, nunca tinha vindo a esta província, mas sei de muitas coisas sobre este lugar por livros e histórias e pessoas, e não era muito diferente, de longe era lindo.
- Ele está perto - Freya fechou os olhos e respirou fundo.
- Quem?! - fiquei nervoso.
- O Sarkan! - Freya sussurrou - Está muito... muito perto.
- Mas acabamos de sair de Müzïgä, como..
- Ele sente o medo, ele sente as águas Volker - Freya me interrompeu.
- O que vamos fazer? - olhei para o mar, tentando procurar alguma sombra estranha, mas não vi nada - Freya?!
- Acalme-se! - Ela abriu os olhos e me olhou - Estou aqui, esqueceu?!
- Desculpe-me - suspirei e me acalmei.
Os marinheiros estavam até mais animados com a nossa saída das trevas eternas, e que também finalmente estávamos nos aproximando do destino final, por quê afinal, quem gosta de passar duas semanas inteiras no mar.
Freya estava bem concentrada, não sabia o que ela estava fazendo, de repente o navio tremeu, algo havia se chocado com a parte de baixo da embarcação, todos os marinheiros fitaram a água tentando procurar o causador do tremor, mas nem eu vi nada na água.
- Afaste-se da borda - Freya sussurrou.
- AFASTEM-SE DA BORDA! - gritei, no mesmo segundo todos os marinheiros correram para o meio da embarcação.
Freya ergueu uma das mãos para o alto e seu cajado se materializou rapidamente em sua mão, ela abriu os olhos e a embarcação tremeu novamente.
- Provarei quem eu sou - Freya fitou todos nós, sorria bastante.
Subitamente um ser enorme saiu da água, tinha escamas mais "moles" do que o normal para um Sarkan, as asas não eram separadas do corpo como a de outros Sarkans, mas mesmo assim ele podia voar, seus olhos eram tão negros quanto o céu de Müzïgä Nakti.
- Ycren'swa teor, Loti (1) - o Sarkan gritou, não entendi quase nada que ele tinha dito.
Freya não pareceu amedrontar-se com o que seja que o Sarkan disse, ela abriu os braços para os lados, o Sarkan ficou atento ao que Freya iria fazer.
- Maiurën wa their sagjus! (2) - Freya falou firme, ao redor de seu corpo começou a sair uma aura negra, a aura cobriu rapidamente todo o corpo de Freya, todos os marinheiros estavam assustados com o poder de Freya, logo Freya lançou o poder na direção do Sarkan.
Ouvi um rugido muito alto no ar e o Sarkan se chocou fortemente contra a água.
- Agora podemos passar em paz - Freya soltou o cajado que se desintegrou antes de cair no chão, e me fitou com um grande sorriso no rosto.
---- Notas ----
(1) Não me desafie, Loti / Sei qual sua fraquesa! - frase dita em Svari, a língua dos Sarkans.
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