Cap.21 - O Espião
Após passarmos pelo Sarkan que Freya derrotou, seguimos nossa viagem tranquilamente, estávamos até mais animados, pois a costa Yelïejâ Kazenëm estava bem perto, eu estava torcendo que ao chegarmos lá, já nos encontrássemos com todos os outros.
Algumas horas se passaram e pude ver a praia de Yelïejâ Kazenëm, olhando mais atentamente ao fundo do continente pude perceber que eram poucas as árvores de grande porte por lá, mas percebi uma vasta diversidade de cores no solo, aquilo me deixou muito intrigado, pois nunca havia vindo aqui.
- É uma contradição este lugar - Freya estava fitando a praia ao meu lado ainda na embarcação - É nas costas de um lugar completamente "morto", como pode ser tão belo e perfeito assim.
- O que são essas cores?
- Flores Volker, de todos os tipos - Freya sorriu - Liesi disse-me que Uldar já iria estar nos aguardando na praia de Yelïejâ Kazenëm.
- Assim espero - suspirei.
Logo desembarcamos da embarcação e fomos na direção da praia em pequenos botes de madeira, quando chegamos em terra firme não vi nenhum ser vivo ali por perto, e logo pensei que Uldar ainda não deveria ter chegado ali, apesar de ser em seu reino e do lado de sua capital, Përkons.
- Ele não está aqui - olhei para todos os lados a fim de acha-los.
- Ele virá, não tenha pressa, nem Mikhail chegou, então devem estar chegando - Freya caminhou mais para dentro do continente, na direção do infinito mar de flores multicoloridas.
Esperamos pouco tempo, até que pude sentir o chão tremer levemente, deduzi que eram cavalos, e se aproximavam de nós com uma velocidade incrível, segurei meu arco com muita força e tirei duas flechas da aljava em minhas costas.
- O que houve? - Freya fitou-me preocupada.
- Não está sentindo?! - sussurrei, respirei fundo e puxei a linha do arco com as duas flechas - Está se aproximando muito rápido.
- Pode ser Mikhail!
- Não importa quem seja, não irei abaixar minha guarda - fechei os olhos e pude ouvir mais nitidamente os passos dos cavalos, esperei o momento certo e soltei as duas flechas na direção que vinha o som.
Esperei alguns segundos para ver se algo acontecia e um clarão surgiu a uns 200 metros de onde nós estávamos.
- É uma magia Volker, é Mikhail, eu lhe disse! - Freya me olhou com raiva - Ouça quando eu digo algo para você!
- Acha mesmo que se for Mikhail, uma ou duas flechas irão simplesmente mata-la?! - prendi o arco ao lado da aljava em minhas costas.
Esperamos alguns segundos e pude ver dois cavalos se aproximando rapidamente de nós, percebi que um dos supostos cavalos eram Syn, fiquei mais aliviado.
- Por quê lançou as flechas? - Mikhail nem esperou parar de cavalgar para começar o interrogatório - Está louco?! - nunca a tinha visto tão furiosa.
- Só achei que não eram vocês! - tentei arranjar algum argumento, mas este não tinha sido um dos bons.
- E quem poderia ser?! Fazendo tanto barulho assim! - Mikhail desceu do cavalo celestial - Se não tivesse sido tão atenta, você realmente teria me acertado.
- Desculpe! - suspirei.
- Acredito que não falta mais ninguém, não é? - Mikhail olhou para os lados tentando encontrar Yirmminsull - Quem é você? - Mikhail fitou Freya.
- Sou Freya Mühl - Freya sorriu delicadamente - A ultima de minha raça - fitei Mikhail e vi seus olhos tão arregalados que quase saltavam de seu crânio.
- Não... - Mikhail estava tão surpresa quanto Anna.
- Não vai desmaiar não é?! - Freya sorriu.
- Você é real mesmo? - Mikhail ergueu uma das mãos para tocar a pele de Freya - Não pode ser, Miesha..
- Destruiu a árvore - Freya completou o que Mikhail ia dizer - Isso é verdade, mas milagres acontecem, não acha?!
- Você não é um milagre - nunca tinha visto Mikhail tão expressiva quanto neste dia - Você é mais que isso, mais que qualquer coisa..
- Não vamos exagerar não é?! - Freya gargalhou - Mas quem está faltando?
- Yirmminsull - Syn respondeu, ainda em sua forma original.
- E onde ele está?! - Freya preocupou-se - Não podemos perder tempo de mais, sabe-se lá o que Miesha está fazendo neste momento, não podemos gastar tempo.
- Para chegar aqui, Yirmmunsull terá de percorrer o maior caminho dentre todos nós, Nord-Eis é muito longe daqui - Syn respondeu novamente - Já suspeitava que ele não chegaria a tempo, e contactei Sigurd, ele disse-me que se nós chegássemos antes de Yirmmunsull, poderíamos ir andando, pois Yirmmunsull sabe o caminho.
- Então ótimo! - as energias de Freya pareciam estar revigoradas, enquanto as minhas ficaram em Dzelzs pilsëta, a viagem tinha sido bem cansativa, e eu não havia descansado um momento se quer, nervoso de mais.
Após alguns minutos de conversa, explicações e decisões estratégicas, finalmente partimos em direção de Okeäna Virsanas, para derrotar Uguns e tomar-lhe o primeiro dos três tesouros da terra sagrada, tínhamos que fazer isto antes de Miesha.
Partimos rumo ao Sul do continente nórdico, o maior dentre todos os continentes em Tenaryon, o caminho foi bem calmo durante um bom tempo, pois ao nosso redor haviam somente flores coloridas e com cheiros magníficos, era uma linda paisagem para se ver antes de morrer, pois eu não estava indo derrotar Uguns pensando em sair vivo de lá, afinal, Uguns é um dos três guardiões, não é qualquer Sarkan.
- Este lugar me trás ótimas recordações - Freya respirou fundo, queria sentir todos os cheiros que todas as flores emanavam - Me parece muito com o lugar onde encontrei Lïdzsvaroht pela primeira vez.
- Você o encontrou mesmo?! - Mikhail ficou intrigada com aquilo, caminhou mais rapidamente para acompanhar Freya ao seu lado.
- Sim - Freya sorriu.
- E como ele era? - os olhos de Mikhail brilharam.
- Ele... - Freya fitou o céu, parecia procurar alguma palavra para descreve-lo de uma maneira mais coerente - era perfeito.
- Como assim perfeito? - Mikhail indagou.
- Somente os que o veem Mikhail, sabem como ele era, não há palavras para descreve-lo - Freya a fitou.
- Mas nunca irei vê-lo... - Mikhail ficou desanimada.
- Você prevê o futuro como sua mãe?! - Freya brincou.
- Claro que não!
- Então como sabe que nunca irá vê-lo criança?! - Freya gargalhou.
- Ele não existe mais! - Mikhail retrucou.
- Eu também não existia para você há alguns minutos atrás, esqueceu? - Freya como sempre, tinha uma resposta sábia e correta na ponta da língua para qualquer exclamação ou interrogação.
- Verdade... - Mikhail ficou pensativa.
- Não sei se sou digna de tal encontro, mas gostaria muito de um dia, antes que chegue a minha hora de me juntar a minha querida mãe, de encontrá-lo - Syn interrompeu o diálogo de Freya e Mikhail.
- Você irá - Freya a fitou e sorriu - Todos irão, acreditem, mantenham esta fé, quanto mais o desejam, mais forte ele fica, mais chances dele voltar a vida - Freya disse com muita animação.
Era um pouco estranho ser o único homem em um grupo somente de mulheres, gostaria que Yirmminsull estivesse chegado antes de nós partimos de Yelïejâ Kazenëm, iria me sentir mais confortável.
De repente Freya parou de andar, fez uma expressão de preocupação, olhou para todos os lados, percebi que ela procurava algo de incomum no lugar, fechei os olhos e me concentrei para ouvir qualquer barulho anormal, mas não consegui ouvir nada.
- O que houve? - Mikhail nos fitou.
- Tem alguém nos seguindo - Freya sussurrou - Não se movam! Ele é cego, está nos seguindo apenas nos ouvindo, não tente ouvi-lo Volker, não irá conseguir, estou o sentindo, mas não consigo dizer onde está.
Ficamos esperando algo acontecer, mas nada acontecia, eu estava ficando nervoso, preocupado com o que poderia estar nos seguindo, e para Freya te-lo sentindo só agora, não poderia ser qualquer um.
- ABAIXEM-SE!!! - Freya gritou, seu cajado surgiu muito rapidamente em sua mão, ela o ergueu e formou-se um circulo branco ao nosso redor, e algo se chocou contra essa barreira que Freya havia formado - Não se levantem, não se movam! - Freya sussurrou.
Tentei ver atrás do circulo que nos rodeava, mas o fluxo de energia deixava o lado de fora um pouco distorcido e não pude ver nada além de um breu, fitei Mikhail e Syn, elas estavam tão assustadas quanto eu, sem saber o que fazer.
- Terei que pedir que façam uma coisa - Freya sussurrou novamente - No momento em que eu disser para fecharem seus olhos, o façam, entenderam?!
- Sim - todos nós sussurramos, fiquei preocupado pois não sabia o que Freya iria fazer.
- Fechem! - todos nós fechamos os olhos imediatamente - Zwä'gyer div stünk (1) - Percebi que a voz de Freya havia ficado mais firme que antes, ao conjurar tal poder, percebi o que restava de minhas forças sendo sugadas por alguma energia não celeste, uma energia negativa, não resisti e abri um pouco um dos olhos, vi que todo o lugar ao nosso redor estava sendo engolido pela gigantesca massa negra que saia do azul cajado de Freya, me senti cada vez mais fraco, Freya olhou para Syn e Mikhail e as viu de olhos fechados, mas ao me olhar, percebeu que eu estava com um dos olhos entreabertos - FECHE OS OLHOS! - Freya gritou, mas era tarde de mais, eu já estava desmaiando - VOLKEERRR! - Freya gritou, sem perceber seu poder se descontrolou por ela ter desviado sua atenção, e a massa de energia negra aumentou três vezes mais - APAREÇA OU IREI LEVAR TODO ESTE LUGAR PARA STORBANN (2)! - Freya gritou.
- Nunca irá me achar - uma voz ecoou no ar.
- Achei! - Freya sorriu maliciosamente, a massa negra desapareceu - Roka Dieviškä (3) - uma luz violeta cobriu o céu, o barulho que o poder fazia parecia com o barulho de quando estava acontecendo um terremoto, com o chão se partindo ao meio - Tentem acorda-lo Mikhail e Syn - Freya girou o cajado azul no ar e o poder cessou - Você saiu na minha armadilha! - Freya bateu a parte de baixo do cajado no chão, subitamente o ser surgiu na sua frente, era uma ave, porém tinha um porte maior do que uma ave normal, enrolado em seu corpo estava uma espécie de corrente violeta formada da energia de Freya - Quem é você??
- Mate-me, não direi - a ave enfrentou Freya.
- Diga-me quem eis!
- Não direi! - a ave falou em um tom mais alto.
- Já o acordaram? - Freya me fitou, eu estava pálido, mas ainda desacordado - Disse para não abrirem os olhos, ele abriu...
- E qual o problema?! - Mikhail fitou Freya curiosa.
- Como conjuradora, você deve saber que existem magias negras, magia composta de sua energia negra, pois somos feitos 50% de energia branca e 50% de energia negra, e esta conjuração que conjurei, é uma das mais poderosas que criei antes de tudo acontecer, de longe ela só consome a energia de quem esta a receber a magia, mas quando conjuro ao lado de outra pessoa, as pessoas são atingidas indiretamente pela minha energia negra, e também sofrem com os efeitos da conjuração.
- Mas o que tem haver estar com os olhos fechados?! - Mikhail indagou.
- Os olhos são os pontos mais próximos de nossos cérebros Mikhail, quando você cheira algum odor ou perfume, demora um pouco para chegar estas informações com todas as características no cérebro, mas os olhos não, as imagens são transferidas tão rápidas, que não há se quer tempo de impedir esta transferência, então esta conjuração ataca...
- Os sentidos! - Mikhail havia entendido toda a explicação com muita rapidez.
- Isso! Ataca os sentidos o destrói o ser de dentro para fora - Freya terminou de explicar e fitou novamente a ave acorrentada - Não irá me contar?
- Vou morrer de qualquer maneira, para quê irei lhe contar alguma coisa?! - Freya estava perdendo a paciência.
- Se me contar tiro minha energia negra de dentro do seu corpo, e você viverá, então conte-me - Freya sorriu.
- Irei morrer não por suas mãos, mas a quem sirvo! - a ave bufou.
- Conte-me e o protegerei de seu mestre - Freya estava jogando com as palavras para cima da ave.
- Não pode contra meu mestre!
- Se acreditar, se é isto que desejas, então poderei - Freya aproximou-se da ave.
- Me... - a ave estava tímida - chamou Liyus.
- O subordinado de Uguns! - Freya riu - Eu sabia! O que fazia nos espionando?
- Meu mestre mandou, tenho que cumprir - Liyus suspirou.
- Sabe que estamos indo o confrontar, não sabe?! - Freya o fitou esperando arrancar mais alguma informação.
- Já o avisei muito antes de chegarem perto daqui - a ave fitou Freya com raiva.
- O levarei até ele então - Freya sorriu.
- NÃO! VOCÊ DISSE QUE NÃO ME LEVARIA ATÉ UGUNS! - Liyus se exaltou, estava desesperado - SE ME LEVAR ELE ME MATARÁ!!!
- Ouça-me indefesa criatura - Freya o fitou - Disse apenas que iria o proteger de seu mestre, não que não o levaria até ele - Ela sorriu maliciosamente.
---- Notas -----
(1) Grito da morte - Magia conjurada na língua dos Loti Izturigs, Bezgalïgs, somente grandes conjuradores podem a conjurar, pois exige uma grande quantidade de seu poder e sua energia.
(2) Storbann - Na crença dos antigos Ljósalfar, após a morte, o corpo permanece em Tenaryon, porém a alma dos corrompidos pela escuridão, ou os próprios causadores de tal, descem para outro mundo chamado Storbann, onde suas almas vagaram por toda eternidade, na solidão, sofrendo.
(3) Mão divina - Conjuração na língua dos Loti Izturigs, Bezgalïgs.
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