Cap.06 - Um Presente
O sol raiou e eu, como não tinha dormido direito na noite anterior estava morrendo de sono, liguei o display do celular e vi que já eram 7:00, minha aula começava 7:30, suspirei, depois do que tinha acontecido ontem, eu não estava muito afim de ir.Fechei os olhos por alguns segundos, sem perceber caí no sono. De repente acordei, assustada peguei o celular novamente e vi a hora, 8:45.
- Droga... - suspirei novamente.
Deixei o celular em cima da cama e levantei-me para escovar os dentes, alguns minutos depois meu celular tocou, terminei de escovar os dentes e peguei o celular, era um SMS do Kazuko: "Como hoje é sábado e não temos aula, estava pensando em ir ver algum filme no centro da cidade, você quer ir comigo?".
- S-S-S-Sábado?! - voltei para o display inicial do celular e vi que realmente hoje era sábado, e eu pensando que tinha perdido aula, imagina que vergonha eu ia passar se aparecesse no colégio em pleno sábado - Não sei se devo ir.. depois de ontem..
Recebi outro SMS: "Não se sinta obrigada a vim ou com pena porque estou indo só, apensa chamei por lhe ver triste ontem, pensei que poderia anima-la ver um filme, distrair sua cabeça de certos acontecimentos, mesmo se você não vier, vou estar lhe esperando em frente a estação central do metrô, estarei lá a partir das 14:00, vou lhe esperar até 15:00, Kazuko."
- Por quê tanta insistência.. - me deitei na cama, não queria sair porque também iria chamar muita atenção, seria bem vergonhoso, olhei para o lado de fora da janela e vi o céu limpo, sem nuvens, eu queria ir - Vim aqui para ter uma vida normal, independente do que as outras pessoas vão falar, eu vou.
Criei coragem de ir, mas tinha um pequeno detalhe, eu não sabia como chegar no centro da cidade, procurei o melhor aplicativo com um ótimo GPS para que eu não me perdesse no meio da cidade, e baixei logo para o celular.
Pensei em avisa-lo que eu realmente iria aparecer, mas vi que nem crédito eu tinha para mandar um SMS se quer.
Passaram-se muitas horas, e estava perto da hora marcada para nos encontrarmos em frente a estação do metrô, abria a porta do meu closet e tentei procurar a melhor combinação de roupas ou algum vestido para ir, mas não sabia que tipo de ocasião seria esta, olhei as horas e era 13:50.
- Com que roupa eu vou... - no mesmo instante lembrei de um lindo e delicado vestido preto, e nem era tão arrumado assim.
Tomei banho e me vesti para sair de casa, peguei o celular e liguei o GPS.
- Bom dia - uma senhora passou em frente a minha casa, ela sorria.
- Bom.. dia - fiquei surpresa com ela falando comigo normalmente.
- Você parece um pouco perdida - a senhora riu.
- Na verdade estou - corei.
- Para onde quer ir querida? - a senhora aproximou-se de mim.
- Para o centro da cidade, tenho que ir de metrô - a fitei.
- A estação do metrô fica a duas quadras daqui, é só você ir reto nesta rua e pronto - ela sorriu.
- Mas.. qual a estação eu tenho que descer? - corei, eu nunca tinha andando de metrô sozinha.
- Você nunca andou de metrô minha filha?! - a mulher pareceu surpresa.
- N-Não..
- Quando você vê no painel "Estação Central", ai é a sua estação, simples - a senhora foi indo embora - Boa sorte no seu encontro.
- Não é um... - corei mais ainda.
Como eu não sabia se chegaria lá a tempo, apressei o passo, e rapidamente passei pelas duas quadras e parei em frente a estação do metrô, paguei minha passagem e entrei no trem, eu não fazia ideia se iria demorar ou custar para chegar, pois pelo o que eu tinha visto, tinham várias estações antes de chegarmos na Central.
Admito que eu estava muito nervosa, muito mesmo, não sabia o que realmente iria acontecer hoje, seria a primeira vez que eu estaria saindo com um menino, sozinha ainda mais.
Alguns minutos depois vi que estávamos no aproximando das estação central, levantei-me do banco e fui para perto da porta, meu coração estava batendo tão rápido que estava querendo sair de dentro de mim.
- Espero que ele me espere - estava muuuuiito nervosa.
O trem parou e abriu as portas de todos os vagões, sai do mesmo e fui andando para sair da estação, ao me aproximar da porta o vi do lado de fora, com as duas mãos dentro dos bolsos da calça olhando para todos os lados, naquele segundo eu não queria ir, não sei o porque mas eu estava nervosa de mais para me aproximar dele, mas também não podia deixa-lo esperando por tanto tempo ali, enquanto eu estava aqui.
- O que eu faço... - minha respiração já estava mais rápida - Não posso ficar aqui, não posso mesmo - caminhei até a porta e a abri, ele que estava de costas para a porta não me vi - Estou aqui - ao ouvir minha voz Kazuko virou-se para mim.
- K-Kumi..ko - ele estava muito surpreso por me ver ali - Achei que você... não iria vim - ele me encarou dos pés à cabeça - Você está linda...
- O-Obrigada - corei, meu coração estava quase saindo pela minha boca.
- Não sabe o quanto estou feliz em ter você aqui comigo - ele sorriu, mas minha cabeça interpretou aquele sorriso mais bonito e sentimental do que antes.
- Aposto que está sorrindo somente para me agradar - o encarei.
- Claro que não! Eu realmente... - ele corou.
- O que?
- Queria sair com você...
- Então estamos em um encontro? - corei em seguida.
- Claro que não! - ele estava cada vez mais nervoso - Não em entenda mal, só queria ver você mas.. não desse jeito..
- Já entendi - ri baixinho.
- Então vamos ver o filme antes que acabem os ingressos.
- Não quero ir ao cinema - aquela foi a primeira vez que eu realmente conseguir impor o que eu queria em cima de alguém sem esse alguém ser meus pais ou algum serviçal da mansão - Não gosto de locais fechados.
- Então... - ele pensou - podemos caminhar pelo pátio das lojas e se você gostar de algo na vitrines eu compro para você, o que acha?
- Comprar pra mim?! Mas por quê?
- Um presente de boas vindas ué, e eu não posso presentear minha amiga?! - ele sorriu - Vamos!
Após alguns minutos de caminhada, em um silêncio horrível, nos aproximamos de um pet shop, e por sinal amo animais, não me aguentei quando vi um lindo filhotinho branco todo peludo.
- Você gosta de animais? - Kazuko me fitou.
- Sim - eu respondi enquanto brincava com o pequeno filhote através do vidro - Sempre quis ter um animal que fosse realmente meu companheiro, mas na minha antiga casa eu tinha todo tipo de animal que eu sonhava, mas nunca podia sair para vê-los, eles ficavam do outro lado do terreno da mansão, era longe de mais.
- Você gosta mais de que?
- Como assim? - o fitei confusa.
- Gatos, cachorros, roedores...?
- Não sei te dizer porque na verdade nunca tive nenhum - fiquei um pouco triste - Me pergunto porque as pessoas que podem ter uma fofura dessas não o compram, se eu realmente pudesse tê-lo, já estaria com ele em casa - os olhinhos do cachorro me traziam uma solidão tão profunda - Mas vamos antes que eu resolva o levar embora comigo - ri.
Kazuko não demonstrou expressão alguma, parecia ter alguma coisa em mente e voltamos a caminhar.
- Você quer comer? - Kazuko me olhou.
- Pode ser - sorri.
- Do que você gosta de comer?
- Pizza - sei que aquilo soava um pouco gordisse mas é sim minha comida preferida.
- Então vamos comer pizza - Kazuko riu ao ouvir aquilo.
Entramos no restaurante italiano e pedimos uma pizza de peperoni, eu tinha ideia de que enquanto nós dois esperávamos pela pizza, algum assunto teria que ser posto "na mesa", mas eu não sabia qual, como eu vi que ele também não sabia, não soube o que fazer e logo o silêncio voltou.
- Você mora só? - sei que era algum suspeito e repentino para se perguntar, mas eu não aguentava ficar olhando pela janela o movimento e aquele silêncio de matar entre nós.
- Não, moro com minha irmã mais velha - ele não parecia ter se tocado que a minha pergunta não tinha sido realmente uma pergunta, e sim um inicio de assunto.
- E seus pais?
- Meu pai morreu quando eu tinha 10 anos, não passei muito tempo com ele porque ele servia ao exército então ele mal vinha pra casa, morreu em combate, minha mãe vive com meus avós do outro lado do país - enquanto ele falava a pizza havia chegado - Mas porque tantas perguntas assim do nada?! - ele riu - Está tão curiosa assim sobre meu passado?
- Você disse que queria saber mais sobre mim, então acho que tenho direito de saber alguma coisa sobre você também, não acha?
- Justo, justo.
Enquanto comíamos, conversávamos sobre nossas vidas, aquela foi também meu primeiro contato, a primeira pessoa que iria saber sobre minha vida com meus pais, não do meu segredo, mas sobre mim, mas ainda sim eu estava com um pouco de medo de contar-lhe tudo sobre mim, eu ainda não conseguia confiar em qualquer um assim, do nada.
Terminamos de comer e ele pagou a pizza, saímos do restaurante.
- Você espera aqui?! Não vou custar nem cinco minutos! - Kazuko parecia estar armando alguma coisa - Prometo que volto!
- Você vai pra onde? - enquanto eu tentava descobrir pra onde ele ia, ele nem se quer esperou minha resposta se eu iria o esperar ou não, simplesmente foi embora.
Já estava de noite, havia um número maior de pessoas no pátio das lojas, vários casais para falar a verdade, mas agora haviam mais pessoas mais velhas que nós, casais já de longa data até.
Eu estava nervosa e curiosa para saber o que ele tinha ido fazer, e já haviam se passado dez minutos, e eu lá, em frente ao restaurante, sozinha, estava começando a achar que ele tinha me deixado ali sozinha.
- Kumiko-san!! - ouvi alguém gritando meu nome de longe, e era ele, correndo com uma caixa de papelão na mão - Desculpe a demora, tentei vim o mais rápido possível - ele estava ofegante - o vendedor não estava sabendo passar meu cartão direito, e eu só iria sair de lá com ele em mãos.
- Ele quem?! - estava assustada com aquela caixa misteriosa.
- Tome - ele ergueu as mãos segurando a caixa - Espero que goste.
- O que você comprou Kazuko??? - Peguei a caixa e senti que estava até pesada, abri uma das abas que fechava a caixa e algo se mexeu dentro da mesma - Ka..zuko... - eu não estava acreditando.
- Não resisti a sua carinha de desejo olhando para aquele cachorrinho Kumiko, eu tive que comprar - Kazuko ria.
- Você viu o preço daquele cachorro, tá louco?! - abri a caixa novamente e o cachorrinho estava lá, assustadinho, encolhido no canto da caixa.
- Você.. não gostou da minha surpresa Kumiko? - Kazuko ficou triste.
- NÃO! Calma! - me senti mal - Eu amei - Mas não era isso que eu queria falar.
- Você... amou? - Kazuko ficou sem expressão ao ouvir aquilo, e eu fiquei tão vermelha, mas tão vermelha que parecia um tomate.
- Calma.. não foi isso que eu quis dizer, espera! - eu nem estava mais conseguindo controlar minha respiração - Eu tentei procurar uma palavra pra dar um... - Kazuko passou a mão no meu rosto, ele estava olhando fixamente em meus olhos - Ka..zuko... o que está fazendo?
Kazuko falou algo, mas eu estava tão nervosa que nem consegui entender, ele se aproximou de mim e me beijou, eu fiquei totalmente sem força, mas tentei aguentar porque afinal não podia jogar a caixa no chão junto com o coitado do cachorro, meu coração estava batendo muito, mas muito rápido.
Sua boca era quente e macia, eu não sei nem como descrever a sensação que tive ao sentir aquele beijo, pude até sentir sua respiração encostando em minha pele e percebi que ele também estava muito nervoso.
Abri meus olhos e no mesmo segundo ele também abriu os dele, como eu estava numa situação complicada meus olhos mudaram de cor, logo sem eu perceber eu já não estava controlando meu corpo, afastei ele um pouco de mim.
Percebi que ele estava assustado olhando para os meus olhos completamente vermelhos.
- Kumiko???
- Não fale mais comigo! - isso saiu da minha boca sem que eu mandasse, meu coração se apertou quando eu percebi que ele não iria mais falar comigo.
- Sim... - Kazuko foi indo embora parecendo um zumbi.
E o controle do meu corpo voltou para mim, eu não estava conseguindo acreditar que aquilo estava acontecendo, não era isso que eu queria.
- KAZUKO! - segurei a caixa com o cachorrinho com toda a minha força e corri atras dele - KAZUKO ESPERE! - parei na frente dele, mas ele passou por mim como se não houvesse ninguém ali - Isso não... Kazuko - como resposta comecei a chorar - Não... por quê?!?!