terça-feira, 7 de junho de 2016

UMI [C.02]

CAP.02 - A brisa interrompida  

Quais as sua lembranças mais frescas na sua mente?! Você as quer? Elas são boas? Então..  
   -- "YUMI!" - ouvi a voz dela.. Ela, que me tira o sono quase toda noite, acordei repentinamente no meio da madrugada, meu corpo estava suado, minha respiração ofegante, passei a mão no rosto e suspirei. 
 -- Só um sonho.. Nossa – sentei-me na cama, olhei para o relógio, "02:48" - vou ter problema pra acordar amanhã certeza. 
Peguei meu celular de cima da mesinha ao lado da cama e fui olhar as últimas mensagens recebidas, um áudio.. 
 -- "Yumi? Você vem pra casa? Sinto sua falta, você andou muito sumido esses dias, liguei para sua mãe e ela disse que você não sai de dentro do quarto, esses jogos online consomem demais você..." - mordi o lábio, aquilo me machucava - "Não está acontecendo nada comigo, eu estou bem, prometo pra você, mas em contra partida, você não pode ficar mal assim meu amor, eu me.." - o áudio repentinamente falhou. 
 -- O que ta havendo.. - meu celular havia travado – celular de bosta – o arremessei do outro lado do cômodo - Por quê eu fico me torturando – ri. 
O dia amanheceu e eu estava no pc, jogando, e não vi a hora passar, quando menos percebi estava atrasado pra aula, de novo. Corri para me trocar, nem banho pude tomar, e desci para sair de casa correndo. 
Ao abrir a porta vi Akiyama caminhando do outro lado da rua, ela inclinou o rosto e sorriu pra mim, "Bom dia", sua boca sussurrou. Essa guria é louca, não é possível. Dei de ombros e fechei a porta. 
Aula chata, dia chato, isso resume minha vida, mas acho que só a minha, todo mundo da classe sempre parece super animado acordando super cedo e rindo, gritando, fofocando, e eu no canto da sala, sozinho. 
 -- Tatsui? - um garoto se aproximou de mim – Bom dia. 
 -- Er.. Oi. 
 -- Me chame de Mahiro – ele sorriu, esperou alguma reação minha, mas eu nem sabia o que falar - Então - ele sentou na cadeira a minha frente - É bem complicado chegar numa escola nova, eu já passei por tudo que você ta passando, te vi sozinho e pensei, por quê não vou ali falar com ele – ele parou de falar esperando que eu dissesse algo, mas não o fiz - Você é bem tímido, não é? 
 -- Na real eu só não sei o que falar – fiquei sem jeito. 
 -- Entendo – ele riu. 
 -- Então, sempre que precisar de algo me dá um toque beleza? - o mesmo se levantou e foi se afastando. 
 -- "precisar de algo" - sussurrei. 
Fim de manhã, fim de aula. Cá estou eu passando pelo portão principal da escola, indo em direção à minha "casinha" pra ficar jogando o dia todo, até que ouço um grito, um grito feminino, e aquilo me preocupa, corro na direção do som, mas não achava nada. 
 -- ONDE VOCÊ ESTÁ? - gritei. 
Ouvi novamente o grito, me desesperei. 
 -- Um Herói - enquanto corria ouvi uma voz vindo de trás de mim – quem você quer ser Yumi? - me virei e era a garota de sempre.. Akiyama. 
 -- O que você quer? 
 -- O que.. Eu quero? - seus olhos ficaram vazios, sua expressão havia mudado - última pessoa que me perguntou isso... - ela se calou. 
 -- Eu não sei o que você quer ou quem você é, mas me deixe em paz! - falei firmemente.  
 -- Você já sentiu a vastidão do oceano.. Yumi? - ela fechou os olhos – feche os olhos. 
 -- Não brinque comigo garota!  
 -- Feche – ela surgiu repentinamente na minha frente, fiquei completamente imóvel - os – se aproximou mais do meu corpo e colocou os lábios a centímetros do meu ouvido direito – olhos. 
Senti uma onda descontrolada pelo meu corpo, algo que me fez fechar os olhos imediatamente, minha respiração estava ofegante, pela primeira vez na minha vida, eu não conseguia controlar meu próprio corpo. 
 -- Sinta a brisa do mar – ela passou uma das mãos levemente sobre meu rosto – O que isso te lembra? - eu não conseguia a responder – Responda – ela disse sutilmente. 
 -- Eu.. 
 -- O que isso te lembra? 
 -- Kyoko. 
 -- Ky.. - Akiyama se afastou de mim, nunca tinha percebido o quão pequena ela era, seus olhos profundos e negros não pareciam ter fim - Você sente muita falta dela, não é? - ela sorriu, pareceu não gostar daquilo. 
 -- O que você quer de mim? - finalmente tinha conseguido ficar mais calmo. 
 -- Um dia, você saberá quem sou eu, mas até lá, pense, você acha mesmo que é isso que ela gostaria para você Yumi? 
 -- Como você se moveu tão rápido??? 
 -- Oh.. - ela riu baixinho – eu tenho meus segredos garoto – virou o rosto e fitou o nada, seu longo cabelo negro caía sobre sua pele branca e macia, era hipnotizante. 
 -- Me deixe em paz, por favor – resolvi fingir que nada daquilo tinha acontecido e fui andando rapidamente de volta para minha casa. 
 -- Próxima vez que você acordar ás duas da manhã, em vez de observar, vou entrar no seu quarto – ao ouvir aquilo me assustei, e virei para vê-la, mas ela não estava mais lá. 
 -- O que.. Porra... 
Finalmente cheguei em casa, minha cabeça estava a mil, não sabia nem o que pensar, arremessei minha bolsa em qualquer cadeira da sala e liguei a televisão, tinha que ocupar minha mente com alguma coisa. 
Ouço meu celular tocando depois de um tempo ali parado, e vi que era um número desconhecido, atendo. 
 -- Alô? - digo ao atender. 
 -- "Tatsui?.. Então achei seu número mesmo .." - era uma voz masculina, já tinha a escutado em algum lugar - ".. Mahiro aqui, então, tava procurando seu número por ai, queria saber, a gente vai sair pro cinema agora de noite, quer ir?" 
 -- C-Como você tem meu número?.. Ah tanto faz, não cara, eu to cansado...  
 -- "Eu to quase ai na sua casa, vamos, se vista" 
 -- V-Você onde cara? Como você sabe onde eu moro???? 
 -- "Você é a pessoa mais rica da cidade, só tem uma casa do tamanho de um estádio, muito difícil" né? - ele riu. 
 -- Meu Deus.. - suspirei – Cara, eu não vou, e para de stalkear minha vida, fazendo favor. 
 -- "Calma Calma!.." - Mahiro se desesperou - "Take it easy boy.. Vamos cara, a noite é uma criança". 
 -- Nossa cara, tá , vou me trocar – levantei do sofá. 
 -- "Ainda bem, porque já estou aqui no portão da sua mansão e tem um cara de azul que tá me dando medo, avisa pra ele que sou do bem cara por favor!" - Mahiro riu. 
Não estava acreditando no que estava acontecendo, EU SAIR DE CASA?! Não cara, isso chega a ser piada. Mas só tinha aceitado aquilo por minha mãe, ela disse pra que eu seja mais receptível com as pessoas, fazer novas amizades, e vai que né. 
Saí de casa e lá estava Mahiro parado com uma moto na frente do portão da casa. 
 --  Você não pode dirigir cara – fui me aproximando do mesmo. 
 -- Quem liga? Sobe logo e vamos que as meninas estão esperando, eu só  vim aqui te pegar, alguém quer muito sair com você - ele sorriu maliciosamente. 
Suspirei e subi na moto. 
Algo me dizia que aquilo não ia ser bom, que algo estava prestes a acontecer, mas.. Todas a células do meu corpo vibravam de excitação com aquilo, minha alma me guiava para algo desconhecido chamado "Sair com os amigos e com umas meninas, e com alguém que quer você". Isso é bizarro. 
Rapidamente chegamos no estacionamento do shopping, e desci da moto. 
 -- Anda, já até comprei teu ingresso – Mahiro apressou o passo. 
 -- O que a gente vai ver cara? Como assim, vocês armaram isso tudo? - fiquei confuso e o segui. 
Chegamos na porta do cinema e Mahiro entregou os bilhetes para a moça da recepção do mesmo e fomos descendo para onde tinham umas pessoas já sentadas conversando. 
 -- Chegamos, quase que ele não vem – Mahiro sentou ao lado de uma menina ruiva, parecia bem nova – senta ali do outro lado, fica de boa. 
Não falei nada e fui passando pelas cadeiras e me sentei, nem vi direito quem estava lá, estava muito escuro. 
O Filme começa, e eu me pergunto, o que a gente vai assistir, o que eu to fazendo aqui, dou até risada. 
 -- O que é tão engraçado? - olhei para o lado e havia uma garota de longos cabelos loiros sentada, já tinha visto ela – Sou Shin, prazer Tasui – ela sorriu, era a garota do outro dia. 
 -- Oh.. Nada não, besteira da minha cabeça, prazer Shin – tentei ser simpático mas sou péssimo nisso – Qual filme vamos ver? 
 -- Sabe que eu não sei – ela riu debochadamente – Mahiro me ligou nas últimas dizendo pra vim, e eu vim. 
Mas que pessoas estranhas.. Do nada "vamos sair", numa terça-feira. Okay.. 
 -- Mahiro onde ta a Nami? Você num disse que ela vinha? - Shin falou. 
 -- Então.. Ela me ignorou – Mahiro riu – Mas me fez um pedido bem particular, mandei uma mensagem pra ela já, espero que ela venha. 
 -- Quem venha? - todos olharam para o outro lado, e lá estava ela, com um vestidinho vermelho e um casaco preto – Obrigada Mahiro – aquele sorriso dela, penetrava sua mente, e rezei "Não sente do meu lado", cheguei a fechar os olhos – Eu vou sentar sim – sabe aquele momento que você fica... ????... então - Você veio, que bom que saiu de casa.  
 -- Você que pediu.. 
 -- Obvio - ela me interrompeu – Relaxa, é só um filme – ela me olhou nos olhos e aquilo me deixou envergonhado - ué.. 
 -- Vamos ver o filme então - tentei mudar o foco da atenção pro filme, mas eu estava muito nervoso, ela estava tão próxima, e quando me lembro de mais cedo, de sua voz no meu ouvido – chega disso.. - sussurrei. 
O filme foi bom no fim, um filme de terror bem suave, ou sou eu que aguento qualquer tipo de filme mas isso indefere. Fomos indo embora da sala do cinema e parei para comprar um mlikshake.  
 -- Você quer carona? - Mahiro aproximou-se com a garota ruiva ao lado. 
 -- Ta tranquilo eu ligo pro motorista, podem ir – sorri. 
 -- Tá então, boa noite Yumi, posso te chamar assim? 
 -- Claro. 
 -- Até amanhã - e ele foi embora. 
Finalmente eu estava sozinho, tomando meu delicioso milkshake de morango, sentado no banco da praça de fora do shopping, olhando a gigantesca lua no céu, aquela vista era linda, conseguia ver o oceano escuro, perfeito. 
Fechei os olhos por alguns segundos e fiquei somente sentindo a brisa que vinha do mar. 
De repente a brisa parou, achei aquilo estranho e abri os olhos, algo molhado escorria em meus pés, e a cena que vi, fez meu corpo tremer. 
 -- Você vai... viver, eu.. Prometo – pude sentir seus cabelos batendo no meu rosto, o vento que batia trazia o cheiro de sangue até meu nariz, Akiyama estava parada na minha frente, com algo que se parecia com uma lâmina brilhante em seu peito, seu rosto imaculado, seu sorriso, seus olhos cheios de fé. 
Ela abaixou-se e passou as mãos no meu rosto. 
 -- Kyoko nunca.. Vai – ela falava com muita dificuldade, meu corpo não tinha reação àquilo - machucar você, nunca... 

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