Cap.02 - Um dia de coincidências
Não vou mentir que estava com um pouco de medo de ir morar só, de acabar acontecendo alguma coisa e não ter ninguém do meu lado para me ajudar, ou até mesmo me controlar, mas como havia pensando, esta nova fase na minha vida seria o "Teste Final" para o controle total de meus poderes, pois ou eu iria me dar bem sobre tudo isso, ou não, todo o meu treinamento de anos junto com meus pais, iria por água a baixo.Após terminar de arrumar minhas malas para viajar, desci a escadaria do castelo em direção da porta principal, e lá estavam meus pais, percebi que Kyo estava com os olhos vermelhos quase chorando.
- Sei que nós não temos uma grande intimidade Miko - Derek se aproximou de mim e acariciou minha cabeça, ele falava um japonês um pouco enrolado - Mas saiba que este castelo irá ficar triste sem você, pois adorava tomar café da manhã com você e Kyo - corei - Mas nunca esqueça, sempre... Sempre mesmo, que precisar de qualquer coisa, não exite em me ligar - ele estendeu a mão e me entregou um celular - Não sei se este irá de encontro com seu gosto - ele riu.
- O-Obrigada... Pai - sorri, vi que um sorriso bem desenhado em seu rosto se formou.
- Minha filha - Kyo se jogou em meus braços - Saiba que esta decisão é a decisão mais difícil da minha vida - ela não se aguentou e chorou - Mas sei que você é forte, sei que você irá ficar bem!
- Prometo que vou ficar bem, então não se preocupe Mamãe - sorri novamente, peguei uma das minhas malas e fui caminhando para sair do castelo, para falar a verdade eu estava segurando as lágrimas, aquele momento era difícil, e eu não gostava de demonstrar minhas emoções para os outros.
Após arrumar todas as malas no carro, entrei e sentei-me, baixei um pouco a janela do bando onde eu estava e vi Kyo ainda chorando.
- Eu amo vocês - sussurrei baixinho, não sei como eu sabia da existência daquela palavra, pois a probabilidade de eu usa-la no meu dia-a-dia era zero, e sabia que nunca iria amar alguém novamente, somente eles dois.
- Nós também te amamos Miko - vi uma solitária lágrima escorrendo no rosto de Derek.
Rapidamente o carro partiu do castelo e eu já não conseguia mais vê-lo, resolvi fechar os olhos e esperar dormindo a chegada no aeroporto.
Não sabia o que me aguardava no Japão, nasci lá, e eu não tinha boas memórias de lá, porém, no fundo no fundo, eu queria sim mudar isto, por causa de Kyo, eu estava começando a me tornar uma pessoa mais positiva, mais... Humana.
- Ojou-san (1) - o motorista me acordou - Desculpe lhe acordar, mas chegamos no aeroporto - ele abriu a porta para que eu saísse, já estava até com as malas do lado de fora do carro - Melhor nos apressarmos, por causa do trânsito, estamos um pouco atrasados, perdoe.
- Não me peça desculpas - ri baixinho - Por acaso o trânsito foi culpa sua?! - ele corou - Não! Então vamos, esqueça disso - Saí do carro e fomos andando calmamente para o saguão de embarque.
Não demorou muito para que eu embarcasse no avião, estava um tanto nervosa por viajar de avião, pois não lembro-me da primeira vez que vim para a Alemanha, eu tinha no máximo 4 anos, então seria como uma primeira vez.
- Você parece um pouco nervosa - Ouvi uma voz ao meu lado e virei o rosto rapidamente, apesar de estar viajando na melhor classe que o avião exigia, ainda sim vinha alguém sentado ao meu lado, e infelizmente eu havia esquecido deste ponto - Não sei se está mesmo... - não havia percebido que eu estava olhando fixamente para o rosto do rapaz ao meu lado - Mas não fique, é só um avião, o piloto sabe o que faz - sua voz era macia, me trazia uma sensação boa, ele sorriu delicadamente - Você está bem?! - Como eu não estava respondendo à suas palavras ele achou estranho.
- Estou - virei o rosto para a janela.
- Ainda bem então - ele apoiou a cabeça no encosto da poltrona - Como se chama?
- T-Tsutsukakushi K-K-Kumiko... - demorei um pouco a responder.
- Que nome... bonito, me chamo Kojima Kazuko - após nos apresentarmos ouvi a aeromoça comunicar que iríamos decolar - Sua primeira viagem de avião? - ele falava enquanto colocava o cinto de segurança.
- N-Não... - eu estava nervosa.
Após alguns minutos o avião decolou, foi tudo normal, achei que seria uma sensação horrivel, tirei minha mascara de dormir de dentro de uma das minhas malas pequenas, coloquei no meu rosto e fechei os olhos, seria uma longa viagem.
Mas meu sono não havia sido o suficiente para chegar até o Japão de olhos fechados, acordei no instante em que serviam o café da manhã.
- Ainda pensei em lhe acordar para tomar o café, mas vejo que não precisei - Kazuko sorriu para mim, mas eu não respondi nada, apenas peguei algo para comer da aeromoça e comecei a comer olhando as nuvens.
Não demorou muito até que já conseguia ver uma grande cidade pela janela do avião, e ouvi o piloto confirmar minha vista, havíamos chegado em Tokyo.
- Você vai ficar em Tokyo Kumiko-san? - Kazuko me fitou.
- Não.. - eu não sabia como dialogar com pessoas estranhas, e não estava entendendo porque ele estava sendo tão legal comigo, ninguém se aproximava de mim por causa da minha estranha aparência.
Quando o avião pousou esperei Kazuko arrumar as coisas para ir embora e levantei-me da poltrona.
- Você tem lindos cabelos - Kazuko sorriu e foi embora.
Aquilo me fez parar no tempo, não acreditei que ele tinha dito isso, depois de tudo... de Tudo que eu havia passado, alguém me diz que uma das fontes de todos os meu problemas... é Bonito. Mas eu não acreditei, quando recobrei minha sã consciência, percebi que isso não se passava de uma brincadeira de muito mau gosto, mas como eu já estava meio que "acostumada" mentalmente com todas as reações possíveis das pessoas estranhas, aquilo não era nada, não me abalou.
Saí do avião e peguei minhas malas no saguão de desembarque, as coloquei no carrinho e fui saindo do gigantesco aeroporto de Tokyo.
Vi que ao lado da porta de saída do aeroporto havia uma tela mostrando o valor do aluguel de pequenos jatinhos, e vi que um deles poderia me levar até Toyama, perguntei para a moça que estava ao lado do painel como eu poderia comprar.
No final comprei a passagem no jatinho particular e rapidamente cheguei em Toyama, rapidamente mesmo, não demorou quase nada, o jatinho pousou no aeroporto da cidade.
Ao sair do local, peguei um Táxi e fui para a casa que meus pais haviam comprado exclusivamente para mim.
A casa era exageradamente grande, como sempre na visão de quem mora em um castelo, sempre mais espaço é melhor, mas me pergunto o que vou fazer com uma casa daquele tamanho só para mim.
Assim que entrei em casa e levei todas as minhas malas para o quarto para começar a arrumar minhas coisas, vi um bilhete em cima da cama, e nele tinha escrito: "Filha, espero que tenha gostado da casa e da localização, sempre pensamos no melhor para você, e amanhã mesmo você já tem aula na escola a quatro quarteirões da sua casa, espero que vá, pois é a melhor da cidade, com muito amor, sua mãe, Kyo."
Ler aquilo fez finalmente uma das lágrimas que eu tanto segurava sair, meu peito se apertou, e senti pela primeira vez o que é realmente o significado de "Saudade".
No outro dia arrumei-me como uniforme da escola, eu estava muito, mais muito nervosa, estava com medo da reação das pessoas sobre a minha aparência, peguei a bolsa para sair de casa e ir para o colégio.
O caminho até o colégio era calmo, cheio de árvores, pássaros, um pequeno parque e um lago bem grande, estava tudo perfeito de mais.
Quando cheguei na frente do colégio vi um grande painel na entrada informando aos novatos para irem diretamente na direção da escola, como eu não sabia onde ficava a direção da escola tentei me achar no pequeno mapa no mesmo painel, mas estava um pouco complicado, afinal ele era pequeno de mais para o tamanho da escola.
- Posso lhe ajudar? - uma mulher se aproximou de mim - Sou Yaguiyu Matsumoto, uma das professoras do segundo ano - ela era super gentil, meiga e delicada, mas uma coisa não estava naquela harmonia, seu grandes e chamativos seios, ao meu ver era o sonho de qualquer garoto, até mesmo Gay.
- Sou novata - corei.
- De qual sala? - ela sorriu delicadamente.
- 2-3 - fitei o chão, ela era tão bonita que estava me deixando envergonhada e com uma certa inveja.
- Veja que coincidência, é a sala onde estou dando aula neste momento, venha, quanto mais tempo perder, menos irá aprender - ela segurou minha mão e começou a andar, como eu não tinha outra escolha, a acompanhei - Aqui é sua sala, decorou o caminho?! - ela riu.
- Sim - ainda estava corada, mais com muita mais vergonha.
- Fiquei aqui, vou lhe apresentar na sala, certo? - ela soltou minha mão, entrou na sala e foi fechando a porta, mas não fechou por completo - Bom dia minhas crianças! Hoje é o primeiro dia de aula deste segundo ano e vejo que muitas caras que eu achava que não iriam se quer conseguir passar, estão aqui! - tive um pouco de medo daquilo, acho que por trás daquela fofura, havia algo mais macabro - E temos uma novata em nossa sala! - todos ficaram agitados - Silêncio por favor - todos se acalmaram - Ela vem da Alemanha, mas é japonesa, apresente-se por favor - ela me fitou pelo pequeno espaço da porta ainda aberta, respirei fundo e abri a porta, fui caminhando devagar.
Quando todos viram meus longos cabelos brancos, foi simplesmente um coral, "OHHHH", constrangedor.
- K-K-K-Kumikoooooooo?! - fitei rapidamente de onde vinha meu nome e não acreditei no que vi.
- K-K-Ka...zuko? - sussurrei, não liguei muito para aquilo, aparentemente, pois eu estava ficando louca e quase desmaiando de tão nervosa, suspirei - Me chamo Tsutsukakushi Kumiko, tenho 17 anos... - minha fala estava quase travando de tão nervosa - E acabei de chegar na cidade, morava com meus pais na Alemanha - uma menina de longos cabelos negros levantou a mão e a concedeu a ele o direito de pergunta.
- Você é uma Ojou-sama (1) ?! - ela sorriu, e todos ficaram surpresos.
- Q-Q-Quê?! - como ela sabia daquilo.
- Para a surpresa de todos eu sou muito interessada sobre as famílias ricas e importantes de todo o mundo, sei muita coisa, e a uns anos atrás tinha visto que uma moça de uma família também bastante importante daqui do japão havia se casado com um Alemão e eles dois tinham uma filha, então pelo seu sobrenome, só pode ser você! - enquanto ela falava meu coração disparava - Não é mesmo?! - eu não conseguia responder.
- Você não precisa responder Kumiko-san - Matsumoto-sensei riu meio sem graça - sente-se ali - ela apontou para uma cadeira ao lado da janela, fui andando calmamente e sentei-me, suspirei.
Mas que começo.
--- Notas ---
(1) Ojou-sama - Comumente usado para falar com garotas ricas ou de um patamar superior, é também comumente utilizado para com garotas que aparentem estas características ou até mesmo por vândalos e yakuzas para com algumas garotas.
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